Por Enem Dinâmico | Série: Redação ENEM — Edição 2019


Este tema enganou quem achou que era sobre cinema. Não era — era sobre desigualdade de acesso à cultura, sobre quem o Brasil decide que merece participar da vida cultural do país. A prova de que o argumento não era sobre arte: apenas 17% da população frequentava salas de cinema em 2019, enquanto 88% assistiam a filmes pela TV regularmente. O desejo existia. A estrutura, não. Os candidatos que escreveram sobre “a importância do cinema” perderam os pontos que os que escreveram sobre as barreiras estruturais ao acesso garantiram. Este artigo mostra onde estava essa virada argumentativa.


Seção 1 — O Tema e o Que a Banca Queria Ver

Democratização do Acesso ao Cinema no Brasil foi o tema do ENEM 2019 — e a palavra “democratização” era o argumento inteiro. Democratizar não é tornar algo mais barato. É tornar algo acessível a todos, independentemente de onde moram, quanto ganham ou a qual classe social pertencem.

A coletânea foi montada com tensão deliberada entre o potencial democrático do cinema — revelado pela história de Méliès no Texto I e pela definição de Morin no Texto II — e a realidade de exclusão documentada nos dados — 17% de frequência, concentração de salas nos shoppings das áreas ricas, municípios inteiros do Norte e Nordeste sem nenhuma sala.

Os candidatos que ficaram no elogio ao cinema como arte perderam o argumento. Os que perceberam que o tema era sobre quem tem acesso à arte — e quem não tem, e por quê — chegaram à nota 1000.


Seção 2 — A Proposta de Redação e os Textos Motivadores

Tema: Democratização do acesso ao cinema no Brasil

O que a proposta pedia: texto dissertativo-argumentativo com proposta de intervenção que respeitasse os direitos humanos.


Texto I — A história que é um argumento sobre potencial democrático

O que o texto diz: Na primeira exibição pública do cinema, em 1895, Lumière achava que a invenção não teria futuro comercial — era instrumento científico. Georges Méliès discordou: enxergou naquela máquina uma arte capaz de contar histórias para multidões, e comprou uma câmera para fazer filmes.

O gancho oculto: A tensão entre as duas visões é a metáfora perfeita para o problema do tema. Lumière via cinema como ciência para poucos. Méliès via como narrativa para todos. O Brasil organizou seu circuito de exibição segundo a lógica de Lumière — como produto para quem pode pagar — em vez da visão de Méliès, que enxergava nele uma arte para plateias imensas. Um candidato que perceber essa metáfora tem uma introdução de alto impacto sem precisar sair da própria coletânea.


Texto II — A definição que amplia o que está em jogo

O que o texto diz: Edgar Morin define o cinema como máquina que registra a existência e a restitui ao espectador — um meio de transpor para a tela o universo pessoal, solicitando a participação de quem assiste.

O gancho oculto: A expressão “restitui a existência”. Se o cinema devolve ao espectador a sensação de que sua experiência importa e merece ser narrada, então quem não tem acesso ao cinema está sendo privado dessa restituição. Grupos que nunca veem suas histórias na tela aprendem que suas existências não merecem ser contadas. Isso transforma a exclusão do cinema de problema de lazer em problema de reconhecimento identitário — e esse é o salto argumentativo que eleva uma redação de boa para excelente.


Texto III — O infográfico que revela a contradição entre desejo e acesso

O que o texto diz: 88% dos telespectadores assistem a filmes na TV regularmente; apenas 19% dos que assistem a filmes na TV vão ao cinema; 17% da população frequenta salas de cinema; 95% dos que foram ao cinema nos últimos 30 dias assistem a filmes na TV.

O gancho oculto: A contradição entre os dois primeiros números. Se 88% das pessoas assistem a filmes regularmente, o interesse pelo cinema existe — o que falta é o acesso às salas. Isso derruba o argumento de que a baixa frequência é falta de interesse cultural: é falta de estrutura. O candidato que perceber essa contradição tem um argumento muito mais poderoso do que quem apenas cita o número de 17%.


Texto IV — Os dados que geografam a exclusão

O que o texto diz: Em 1975, o Brasil tinha 3.300 salas, 80% no interior. A urbanização e os shopping centers reduziram e reconcentraram as salas. O Brasil é o 60º país em salas por habitante. Populações do Norte, Nordeste, periferias e cidades médias do interior continuam mal atendidas.

O gancho oculto: Duas camadas. A primeira é histórica: o Brasil já teve distribuição mais democrática de salas — e perdeu. Isso significa que democratizar não é utopia: é reversão de um processo histórico documentado. A segunda é política: a concentração nas áreas ricas não é acidente — é resultado de omissão do Estado e da lógica de mercado operando sem regulação. Esses dois elementos entregam o diagnóstico e justificam a intervenção proposta na conclusão.


Seção 3 — As Armadilhas da Coletânea

Armadilha 1 — Usar os dados sem analisar o que revelam. Dizer “o Brasil tem poucas salas de cinema” é paráfrase. O argumento está no que esse dado revela: que a concentração não é natural — é produto histórico de omissão do Estado e de uma lógica de mercado que o poder público permitiu operar sem regulação.

Armadilha 2 — Tratar o tema como problema de entretenimento. O tema é democratização do acesso — o que implica direito cultural, identidade, representação e participação na vida cultural contemporânea. Reduzir o argumento a “as pessoas merecem se divertir” empobrece a análise e ignora a dimensão constitucional e identitária que os textos entregam.

Armadilha 3 — Confundir acesso à TV com acesso ao cinema. O Texto III mostra que 88% assistem a filmes na TV — mas isso não resolve o problema. Cinema e TV são experiências culturais distintas, e a proposta pede democratização do acesso ao cinema. Usar a TV como solução é desviar do tema.

Armadilha 4 — Ignorar o recorte geográfico dos dados. O Texto IV é explícito: Norte, Nordeste, periferias urbanas e cidades médias do interior são as regiões mais excluídas. Uma redação que trate o problema como uniformemente distribuído pelo Brasil ignora a desigualdade territorial que os dados revelam.

Armadilha 5 — Propor apenas “redução do preço dos ingressos”. Preço é uma barreira — mas não é a única nem a principal. Municípios sem nenhuma sala de cinema não têm problema de preço: têm problema de ausência. A proposta precisa abordar a distribuição territorial das salas e o fomento público à exibição.

Armadilha 6 — Proposta de intervenção genérica. “O governo deve investir em cultura” não é proposta. A Competência V exige: agente específico + ação concreta + meio de execução + efeito mensurável + detalhamento. Sem os cinco elementos, os pontos não voltam.


Seção 4 — A Redação Modelo

Em 28 de dezembro de 1895, quando os irmãos Lumière exibiram pela primeira vez imagens em movimento para um público pagante em Paris, Georges Méliès estava na plateia. Ele imediatamente enxergou o que Lumière ainda não via: aquela máquina científica podia contar histórias para multidões. Mais de um século depois, o cinema se tornou exatamente isso — a arte que mais pessoas alcança no planeta. No Brasil, porém, alcançar não significa alcançar a todos. Apenas 17% da população frequenta salas de cinema, segundo dados de 2019 — o que revela que o acesso ao cinema presencial segue sendo privilégio de uma minoria. Esse privilégio tem duas raízes que se sustentam mutuamente: a concentração geográfica das salas de exibição nas regiões mais ricas do país, que exclui populações inteiras do acesso físico ao cinema, e a ausência de políticas públicas de fomento à cultura cinematográfica que garantam esse acesso como direito, não como mercadoria.

O primeiro desses problemas tem dimensão histórica documentada. Em 1975, o Brasil tinha cerca de 3.300 salas de cinema, com 80% delas no interior do país. A urbanização acelerada e a reorganização da exibição em torno dos shopping centers reduziram e reconcentraram esse número — e o crescimento posterior não reverteu a exclusão: segundo a Ancine, o Brasil é apenas o 60º país no mundo na relação de habitantes por sala, e as salas existentes foram construídas prioritariamente nas áreas de renda mais alta das grandes cidades. O sociólogo Renato Ortiz, ao analisar a cultura brasileira em A Moderna Tradição Brasileira (1988), mostrou que o acesso aos bens culturais no Brasil sempre seguiu os mesmos eixos de classe e território que estruturam todas as outras desigualdades do país. Populações inteiras do Norte, Nordeste, periferias urbanas e cidades médias do interior continuam mal atendidas — não porque não existam, mas porque o mercado decidiu que não são público rentável o suficiente para justificar investimento. Quando a cultura vira mercadoria, quem não tem poder de compra fica de fora da conversa.

O que torna esse quadro mais grave é que a exclusão do cinema não é apenas privação de entretenimento — é privação de um direito cultural garantido pela Constituição Federal de 1988. O teórico Jesús Martín-Barbero argumentou que o acesso às narrativas audiovisuais é condição para a participação plena na vida cultural contemporânea: é por meio delas que identidades são construídas, que histórias são contadas e que grupos sociais se reconhecem ou se veem apagados. No Brasil, onde 88% dos telespectadores assistem a filmes na TV regularmente enquanto apenas 17% frequentam salas, fica evidente que o desejo pelo cinema existe — o que falta é a estrutura que o torne acessível. A concentração das salas nos shoppings das áreas ricas não é consequência natural do mercado: é resultado de décadas de omissão do Estado em regular, fomentar e democratizar a distribuição espacial da cultura cinematográfica pelo território nacional.

Diante desse quadro, é necessário que a Agência Nacional do Cinema (Ancine), em parceria com o Ministério da Cultura e municípios, implemente um programa nacional de expansão de salas de cinema públicas e de cinema itinerante, por meio da criação de editais de fomento para construção e manutenção de complexos culturais em municípios sem sala de exibição e para o deslocamento de estruturas móveis de cinema a comunidades periféricas e cidades do interior, com o efeito de ampliar o acesso ao cinema para populações historicamente excluídas do circuito de exibição comercial. Como detalhamento, esses editais devem incluir cotas de exibição para produções nacionais e regionais, garantindo que o cinema que chega a essas comunidades não apenas entretenha, mas também represente as histórias e os rostos que o circuito comercial raramente coloca na tela. Porque a máquina que Georges Méliès quis comprar naquela noite de 1895 foi projetada para contar histórias para todos — e o Brasil ainda não decidiu que todos merecem ouvi-las.


Seção 5 — O Raio-X Anatômico

(Entenda a engenharia de cada frase — depois replique com suas próprias palavras)


[INTRODUÇÃO]

[Repertório Inicial] Em 28 de dezembro de 1895, quando os irmãos Lumière exibiram pela primeira vez imagens em movimento em Paris, Georges Méliès estava na plateia. Ele imediatamente enxergou o que Lumière ainda não via: aquela máquina científica podia contar histórias para multidões.

💡 Por que funciona: A introdução usa a própria história do cinema — presente no Texto I — para construir uma metáfora do problema. Lumière = visão elitista, para poucos; Méliès = visão democrática, para todos. O Brasil seguiu Lumière. Essa metáfora não é decorativa — é o argumento central da redação em forma narrativa.

[Vínculo com o Tema] No Brasil, porém, alcançar não significa alcançar a todos. Apenas 17% da população frequenta salas de cinema — o que revela que o acesso ao cinema presencial segue sendo privilégio de uma minoria.

💡 Por que funciona: A conjunção adversativa “porém” cria a ruptura entre o potencial democrático do cinema (apresentado antes) e a realidade brasileira (apresentada agora). Isso transforma uma transição em argumento: o cinema poderia ser de todos — e no Brasil não é.

[Tese 1] a concentração geográfica das salas de exibição nas regiões mais ricas do país, que exclui populações inteiras do acesso físico ao cinema,

[Tese 2] e a ausência de políticas públicas de fomento à cultura cinematográfica que garantam esse acesso como direito, não como mercadoria.

💡 Por que funciona: A distinção final — “como direito, não como mercadoria” — é o argumento central em miniatura. Ela nomeia a disputa filosófica e política do tema: o cinema é um bem cultural que o Estado tem obrigação de democratizar, não um produto cujo acesso depende do poder de compra. Isso prepara o D2 sem precisar antecipá-lo.


[DESENVOLVIMENTO 1]

[Conectivo Interparágrafo] O primeiro desses problemas tem dimensão histórica documentada.

💡 Por que funciona: “Dimensão histórica documentada” qualifica o problema como factual, não opinativo — e anuncia que o parágrafo vai usar dados históricos como argumento, não apenas como ilustração.

[Tópico Frasal] Em 1975, o Brasil tinha cerca de 3.300 salas, com 80% delas no interior. A urbanização acelerada e os shopping centers reconcentraram esse número — e o crescimento posterior não reverteu a exclusão.

💡 Por que funciona: O dado histórico de 1975 transforma a desigualdade atual num processo reversível — o Brasil já teve melhor distribuição de salas e perdeu. Isso é argumento político: democratizar não é utopia, é reverter uma perda documentada.

[Repertório Sociocultural] O sociólogo Renato Ortiz mostrou que o acesso aos bens culturais no Brasil sempre seguiu os mesmos eixos de classe e território que estruturam todas as outras desigualdades do país.

[Articulação Repertório → Problema] Populações inteiras do Norte, Nordeste, periferias e cidades médias do interior continuam mal atendidas — não porque não existam, mas porque o mercado decidiu que não são público rentável o suficiente.

💡 Por que funciona: A distinção “não porque não existam, mas porque o mercado decidiu” é o argumento mais preciso possível sobre exclusão por lógica de mercado. Ela reposiciona a causa da exclusão: não é invisibilidade demográfica, é invisibilidade econômica. Isso é C3 no nível máximo.

[Fechamento Posicionado] Quando a cultura vira mercadoria, quem não tem poder de compra fica de fora da conversa.

💡 Por que funciona: Frase curta, posicionamento claro. “Fica de fora da conversa” — não apenas do entretenimento — amplia o que está em jogo: participação cultural como condição de cidadania. Cria ponte para o D2 sem precisar de transição explícita.


[DESENVOLVIMENTO 2]

[Conectivo Interparágrafo] O que torna esse quadro mais grave é que a exclusão do cinema não é apenas privação de entretenimento —

[Tópico Frasal] é privação de um direito cultural garantido pela Constituição Federal de 1988.

💡 Por que funciona: Separar o conectivo do tópico frasal em duas frases — uma que nega e uma que afirma — cria ênfase retórica. “Não é apenas privação de entretenimento” faz o leitor esperar a continuação; “é privação de um direito constitucional” entrega o argumento com impacto. É recurso de C1 que também serve C3.

[Repertório Sociocultural] O teórico Jesús Martín-Barbero argumentou que o acesso às narrativas audiovisuais é condição para a participação plena na vida cultural contemporânea: é por meio delas que identidades são construídas, que histórias são contadas e que grupos sociais se reconhecem ou se veem apagados.

[Articulação Repertório → Problema] No Brasil, onde 88% assistem a filmes na TV enquanto apenas 17% frequentam salas, fica evidente que o desejo pelo cinema existe — o que falta é a estrutura que o torne acessível.

💡 Por que funciona: Cruzar os dois números — 88% e 17% — é o movimento argumentativo mais sofisticado disponível nesta coletânea. Ele derruba a hipótese de que a baixa frequência é falta de interesse: o interesse existe (88%), o que falta é acesso (17%). Isso é C3 usando os próprios dados da coletânea para refutar o argumento contrário antes que ele seja levantado.

[Fechamento Posicionado] A concentração das salas nos shoppings das áreas ricas não é consequência natural do mercado: é resultado de décadas de omissão do Estado em democratizar a distribuição espacial da cultura cinematográfica.

💡 Por que funciona: “Não é consequência natural — é resultado de omissão” é a estrutura argumentativa mais poderosa para responsabilizar o Estado. Ela transforma a desigualdade de dado descritivo em dado normativo: não é assim que precisa ser, é assim por escolha política que pode ser revertida.


[CONCLUSÃO]

[Agente] a Agência Nacional do Cinema (Ancine), em parceria com o Ministério da Cultura e municípios,

[Ação] implemente um programa nacional de expansão de salas de cinema públicas e de cinema itinerante,

[Meio / Modo] por meio da criação de editais de fomento para construção e manutenção de complexos culturais em municípios sem sala de exibição e para o deslocamento de estruturas móveis de cinema a comunidades periféricas e cidades do interior,

[Efeito] com o efeito de ampliar o acesso ao cinema para populações historicamente excluídas do circuito de exibição comercial.

[Detalhamento] Como detalhamento, esses editais devem incluir cotas de exibição para produções nacionais e regionais — garantindo que o cinema que chega a essas comunidades não apenas entretenha, mas também represente as histórias e os rostos que o circuito comercial raramente coloca na tela.

[Grand Finale] Porque a máquina que Georges Méliès quis comprar naquela noite de 1895 foi projetada para contar histórias para todos — e o Brasil ainda não decidiu que todos merecem ouvi-las.

💡 Por que funciona: O grand finale fecha o círculo narrativo aberto na introdução — Georges Méliès reaparece, e a metáfora inicial se transforma em conclusão política. Isso é moldura narrativa: o texto começa e termina no mesmo ponto, mas o leitor chegou ao fim com uma compreensão completamente diferente. A banca reconhece esse recurso como marca de candidato de nota máxima.


Seção 6 — Bizús Coringa

💡 Bizú 1 — Cidadania Cultural (Marilena Chauí)

O que é: A filósofa Marilena Chauí, ao desenvolver o conceito de cidadania cultural na gestão das políticas culturais de São Paulo nos anos 1990, argumentou que cultura não é produto de consumo — é direito de cidadania garantido pela Constituição Federal de 1988, que obriga o Estado a garantir a todos o acesso às fontes da cultura nacional. Quando o Estado deixa a distribuição cultural inteiramente nas mãos do mercado, ele abdica de uma obrigação constitucional e transforma direito em privilégio.

Como fazer na folha: “A filósofa Marilena Chauí, ao desenvolver o conceito de cidadania cultural, argumentou que cultura não é produto de consumo — é direito garantido pela Constituição Federal de 1988, que obriga o Estado a garantir a todos o acesso às fontes da cultura nacional. No Brasil, onde apenas 17% da população frequenta salas de cinema e onde municípios inteiros do Norte e Nordeste não têm nenhuma sala de exibição, o Estado abdica dessa obrigação ao deixar a distribuição do cinema inteiramente nas mãos de um mercado que só investe onde há poder de compra suficiente.”

Transfere para: democratização do acesso à internet, ao livro e à leitura, ao teatro, à música ao vivo, a espaços esportivos — qualquer bem cultural que a Constituição garante mas o mercado não distribui democraticamente.


💡 Bizú 2 — A Lei do Audiovisual e Seus Limites (Repertório Jurídico)

O que é: A Lei do Audiovisual de 1993 criou incentivos fiscais para a produção cinematográfica brasileira — e foi fundamental para a retomada do cinema nacional nos anos 1990. O limite estrutural: a lei focou na produção, não na distribuição e exibição. O cinema brasileiro voltou a ser produzido, mas as salas que exibiriam esses filmes continuaram concentradas nas áreas ricas. Fomentar produção sem democratizar exibição é resolver metade do problema.

Como fazer na folha: “A Lei do Audiovisual de 1993 foi fundamental para a retomada da produção cinematográfica brasileira, financiando filmes premiados internacionalmente. Seu limite é estrutural: ao focar na produção sem enfrentar a concentração das salas de exibição, a lei garantiu que o Brasil voltasse a fazer cinema — mas não que todos os brasileiros pudessem assisti-lo. Democratizar o acesso ao cinema exige ir além do fomento à produção: exige regulação da distribuição e investimento público na expansão territorial das salas, especialmente em regiões historicamente excluídas do circuito comercial.”

Transfere para: políticas culturais, fomento à cultura, distribuição territorial de bens públicos, democratização do acesso a qualquer bem cultural financiado com recursos públicos.


💡 Bizú 3 — A Lógica da Transferência Temática

A estrutura argumentativa desta redação — bem cultural com potencial democrático + concentração desigual do acesso por classe e território + omissão do Estado que permite ao mercado operar sem regulação — transfere-se para outros temas do ENEM:

  • Democratização do acesso à internet: concentração da infraestrutura de banda larga nas regiões mais ricas e exclusão digital de populações rurais e periféricas (T1) + ausência de regulação efetiva que obrigue operadoras a expandir cobertura além das áreas economicamente rentáveis (T2)
  • Democratização do acesso ao livro: concentração de livrarias e bibliotecas nas regiões ricas, com municípios sem nenhuma biblioteca pública (T1) + subfinanciamento crônico do programa nacional de bibliotecas e ausência de política consistente de distribuição de livros para escolas públicas periféricas (T2)
  • Democratização do acesso ao teatro e às artes cênicas: concentração de teatros e espaços culturais nos centros históricos e bairros nobres das capitais (T1) + cortes no financiamento público à cultura e ausência de editais de fomento para produções itinerantes (T2)

📚 Série: Redação ENEM — publicada pelo Enem Dinâmico

📖 Baseado na proposta oficial do ENEM 2019 (INEP/MEC)

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Em 2020 — ano em que o mundo inteiro viveu uma crise de saúde mental sem precedentes —, a banca escolheu um tema que a maioria dos candidatos achava que conhecia bem: saúde mental. O problema é que conhecer o tema não é o mesmo que saber analisar o estigma que o envolve. Os candidatos que escreveram sobre “a importância de cuidar da saúde mental” perderam os pontos que os que escreveram sobre como o preconceito impede que as pessoas busquem esse cuidado garantiram. No próximo artigo, você vai ver onde estava essa diferença.

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